Encontrava-me numa pequena reunião de trabalho quando o telefone tocou... naquela hora, daquele número, dado o quadro clinico das
ultimas semanas, presumi o que seria.
Saí...o telefonema não demorou mais que 2 minutos, pela voz
da minha mãe tive a confirmação, o meu avô paterno, últimos dos meus avôs vivos,
morreu. Desliguei o telefone e em alguns segundos medi o impacto que o
acontecimento teria no meu planeamento daquele dia e do próximo e voltei para a
pequena reunião, o meu dia de trabalho segui dentro da “normalidade”.
Em mim, a morte sempre foi inexplicável, inaceitável, ao
ponto de na adolescência, e a bem da minha sanidade mental, ter decidido desistir
de montar esse puzzle, resolvi ignorar fechar a caixa com as peças soltas, subir o escadote e guardar na última prateleira.
Mas ao longo da vida, algumas vezes, felizmente poucas, a
caixa caiu, e as peças saltaram desordenadas
por todo lado, uma desordem que contagiava o meu equilíbrio, tudo aquilo pareceria
sempre completamente desprovido de sentido… “ Fim? Mas que fim!?”. Restou-me
sempre tentar colocar o mais rapidamente possível as peças dentro da caixa e
subir novamente até á ultima prateleira para a arrumar.
Quando há umas horas o telefone tocou e a caixa voltou a
cair no chão, estranhamente grande parte das peças pareceram estar encaixadas,
e o meu dia seguiu em normalidade, sem o desarrumo dos “porquês?” da morte…
O que mudou em mim? O meu avô era um homem de 100 anos; apesar
do lanço de sangue e carinho “a vida” fez que fosse ficando cada vez menos
presente na minha vida; já não sou o adolescente de ontem e consigo ter a frieza
de racionalizar a inevitabilidade do fim.
Mas sabes Avô!?
Não gosto deste meu eu, este que se propõem a aceitar a morte…
a tua morte, não gosto desta frieza encapotada pelo eufemismo de maturidade… não
sou eu isto, nem quero ser, quero ser o que sente tudo de forma intensa e
verdadeira como a vida exige. Não me pode fazer sentido não voltar a ver-te nesse sorriso só
teu a dizer na tua voz pousada “ Olha o Mestre”…E
tenho de chorar, como choro agora, por constatar que algo que não entendo me roubou
essa possibilidade.
Viajo pela memoria, ela não me trás uma gesto ou uma palavra
ríspida que tenhas tido para comigo…para sempre ficara a ultima vez que te vi, onde
respondeste á pergunta “Sabe quem é este?” com esse sorriso matreiro só teu“ é
aquele que passa a vida a andar la por fora”.
Adeus, Avô.


